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OPINIÃO: Entre porcos e promessas, o chiqueiro em que virou a eleição

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Publicado em 4 min de leitura

Com o fim do primeiro turno chegando, a certeza que tenho é que foi uma disputa entre porcos em um chiqueiro.

A imagem é propositalmente grosseira. A campanha também foi.

Em vez de transformar a eleição em uma disputa consistente sobre os problemas do país e sobre os caminhos possíveis para enfrentá-los, boa parte da reta final foi ocupada pela lógica do ataque, da provocação e da guerra de narrativas.

As pesquisas divulgadas na véspera da votação ajudam a dimensionar o ambiente de tensão. Lula e Flávio Bolsonaro aparecem muito próximos nos levantamentos, alternando posições conforme o instituto e permanecendo dentro da margem de erro em diversos cenários.

A disputa chegou ao último dia praticamente sem oferecer ao eleitor a confortável ilusão de que o resultado estava decidido.

Isso, por si só, não seria um problema. Eleições competitivas são saudáveis.

O problema começa quando a competição deixa de ser sobre projetos e passa a ser, predominantemente, sobre a destruição do adversário.

O espetáculo tomou o lugar da política

A campanha chegou ao último fim de semana com troca de ataques na propaganda eleitoral e forte disputa pelo eleitorado feminino, enquanto as principais candidaturas concentravam esforços nos maiores colégios eleitorais do país.

Até o último debate presidencial antes da votação virou símbolo desta eleição.

O encontro que seria realizado pela TV Globo foi cancelado depois de decisões judiciais e da desistência de Flávio Bolsonaro, enquanto Lula também não havia confirmado presença. O episódio acrescentou mais uma camada de controvérsia a uma campanha já marcada por disputas jurídicas e políticas.

É difícil olhar para esse conjunto de acontecimentos e não sentir que alguma coisa se perdeu pelo caminho.

Uma eleição deveria colocar diante do cidadão escolhas difíceis, propostas concretas e diferenças claras sobre economia, segurança, saúde, educação, infraestrutura e instituições.

Em vez disso, o eleitor frequentemente acaba convocado a escolher quem teme menos, quem rejeita mais ou quem considera menos desagradável.

Esse método pode funcionar eleitoralmente.

Mas cobra uma conta alta da democracia.

A polarização virou método

Lula e Flávio chegaram ao fim do primeiro turno como protagonistas de uma disputa extremamente polarizada.

As pesquisas mostram que os demais candidatos não alcançaram dois dígitos nos levantamentos nacionais mais recentes, enquanto os dois líderes concentram a maior parte da intenção de voto.

Não há nada necessariamente ilegítimo nisso. O problema está em transformar a polarização em substituta do debate.

Quando a eleição passa a ser construída sobretudo pela rejeição ao outro lado, cada crítica vira ataque, cada resposta vira contra-ataque e qualquer tentativa de nuance é tratada como traição.

É assim que o chiqueiro fica completo.

Não porque os eleitores sejam porcos. Não são.

Também não porque divergências políticas sejam condenáveis. Elas são indispensáveis.

A metáfora serve para descrever um ambiente eleitoral no qual a política parece, muitas vezes, ter sido reduzida à lama jogada de um lado para outro.

O eleitor merece mais

O eleitor brasileiro chega às urnas neste domingo, 4 de outubro, para o primeiro turno das Eleições 2026. O Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu a data e prevê eventual segundo turno para 25 de outubro.

Agora, resta ao cidadão fazer aquilo que as campanhas nem sempre fizeram da melhor maneira: separar o barulho daquilo que realmente importa.

Uma pesquisa não é resultado eleitoral.

Uma postagem viral não é prova.

Um ataque não é argumento.

Uma promessa não é política pública.

Uma frase de efeito não substitui um plano de governo.

E uma eleição não deveria ser julgada apenas pela capacidade de um candidato destruir a imagem do outro.

É justamente por isso que a metáfora do chiqueiro incomoda.

Porque, por trás dela, existe uma pergunta séria: quanto tempo uma democracia consegue sustentar uma política baseada permanentemente na hostilidade?

Talvez o primeiro turno termine neste domingo.

A disputa, porém, não termina necessariamente ali. Se houver segundo turno, o país terá outras três semanas para decidir entre duas alternativas.

Seria desejável que essa nova etapa trouxesse menos lama e mais conteúdo.

Porque o Brasil não vai melhorar porque um candidato venceu uma briga verbal.

Vai melhorar quando seus governantes forem capazes de transformar mandato em política pública, promessa em ação e conflito político em debate democrático.

Até lá, continuaremos assistindo ao espetáculo.

E, olhando para esta campanha, é difícil não reconhecer o chiqueiro.

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