Brasil

A fachada muda, os ratos ficam

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Publicado em Atualizado em 2 min de leitura

A cada eleição, o Brasil repete o mesmo ritual: escolhe a cor da tinta da fachada e finge não ver o que acontece lá dentro. Discutimos candidatos, pesquisas e propaganda, enquanto o prédio continua tomado por ratos, alguns deles, que nenhuma urna jamais elegeu.

Digo sem rodeios: pouco me importa quem vai ganhar a Presidência. Não por desprezo ao voto, mas porque reconheço seus limites. O poder está dividido entre o Congresso, o Senado, o Supremo Tribunal Federal e uma engrenagem de corrupção que atravessa diferentes instituições. O presidente muda ou não, mas independentemente a engrenagem continua. É o velho paradoxo de O Leopardo: muda-se a superfície para que o fundo permaneça intacto.

Sei que é desconfortável admitir isso. Acreditar que o voto, por si só, resolve tudo é mais confortável, porque nos poupa de encarar um problema maior. Na minha visão, o sistema político e judicial brasileiro chegou a um ponto de desgaste profundo. Uma democracia não se resume à realização de eleições; também depende de instituições submetidas à lei e ao controle da sociedade. Quando quem fiscaliza se protege, quem julga se blinda e quem legisla age em causa própria, sobra o rito, mas falta a substância.

Como formado em História, desconfio de quem afirma que “isso nunca aconteceu antes”. Em 3 de outubro de 1930, teve início o movimento que derrubou a República Velha, um regime que também realizava eleições, mas no qual os resultados eram fortemente controlados pelas elites e o cidadão comum tinha participação limitada. Não estou fazendo uma previsão, muito menos dizendo que a história se repete da mesma forma. O que digo é que alguns sintomas conhecidos do passado voltaram a aparecer: descrença nas instituições, sensação de jogo marcado e uma distância cada vez maior entre quem exerce o poder e quem paga a conta.

Regimes raramente desmoronam de uma hora para outra. Muitas vezes, o desgaste acontece aos poucos, enquanto a maioria continua discutindo apenas a cor da tinta. Talvez seja hora de olhar também para a estrutura.

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